Proselitismo religioso?

Fim de ano chegando e mensagens de boas festas em todo lugar. Inclusive na portaria da Universidade.

Uma mensagem, digamos que inofensiva, da UFLA, gerou polêmica em virtude de pessoas que adoram problematizar questões sem a menor necessidade. O banner de boas festas de fim de ano foi acusado de ferir a laicidade do Estado e gerou um abaixo-assinado pedindo sua retirada, por “militantes ateus” que se sentiram “ofendidos” e “feridos na sua liberdade de crença”. Clique aqui para ver a imagem.

Pois bem, segundo esses mais de duzentos estudantes, a pequena expressão “crença no criador” é um proselitismo religioso velado que remete ao catolicismo e tenta impor uma crença no deus cristão. A Universidade, por ser pública e plural, deve ser laica, ou seja, não possuir uma religião oficial, não privilegiar uma religião em detrimento das outras. Por isso, não deveria haver menção a Cristo no banner, independente de ser a religião com maior número de adeptos no país, visto que há pessoas que compartilham outras crenças ou não-crenças e o direito das minorias deve sempre ser assegurado.

Contudo, é só um banner de fim de ano. A comemoração natalina está enraizada na nossa  cultura. Mesmo teoricamente o governo brasileiro sendo laico, ainda há muita influência do catolicismo e isso podemos observar pela quantidade de feriados religiosos no nosso calendário (Sexta-feira da Paixão, Corpus Christi, Dia de Nossa Senhora Aparecida, Finados, Natal). Se fôssemos seguir essa lógica de raciocínio, deveríamos não somente retirar a mensagem do banner da universidade e a frase “Deus seja louvado” das notas do real, mas também excluir todos estes feriados do calendário. Mas isso ninguém quer reivindicar.

O banner não fere a liberdade de crença como argumentaram alguns ateus. Ele não está impondo que você creia em um criador. Aliás, a expressão crença no criador não está tornando estrita a crença em Cristo, pode ser qualquer criador, abrangendo várias religiões. Simplesmente, se a pessoa que lê a mensagem é um crente tomará a frase para si com contento, se é um não-crente com consciência de que a maioria das pessoas compartilha daquela crença, apenas ignora e não absorve a mensagem para sua vida. Não há porque polemitizar essa simples frase.

O Estado, assim como as universidades pertencentes a ele não devem se deixar influenciar por princípios religiosos. Correto. Mas isso deve ser levado em conta nas tomadas de decisões referentes a assuntos que modifiquem verdadeiramente a sociedade e a maneira como se organiza. Querem discutir a laicidade do governo? Discutam o aborto, a eutanásia, a pesquisa com células-tronco. Não criem problemas com uma simples mensagem de fim de ano. O país já tem muitos paradigmas a serem colocados em xeque, não se atenham a assuntos insignificantes que não prejudicam nem modificam em nada a atual conjuntura.

Independente de sua crença (ou não-crença), desejo a você boas festas de fim de ano!

Tons de cinza

Só mais um dia de chuva. Um dia de chuva que traz com ele a ânsia de se cercar de livros e chocolate. As gotas da chuva trazem a melodia natural que acalma a alma. E a alma, mais calma, aprecia com maior intensidade as ondas sonoras que chegam aos ouvidos, degustando o timbre suave da voz que se confunde com a sinfonia de cordas vibrantes. A língua se deleita com o açúcar de maravilhas gastronômicas, tão acentuado ao paladar sob os tons de cinza deste céu nublado. O cérebro carece da imersão em uma estória, real apenas no plano abstrato da imaginação. E ao imergir, deixa para trás tudo à sua volta. Mas esse tudo, que por instantes se tornou nada, vem à tona juntamente com os primeiros raios solares que despontam por entre as nuvens assim que a derradeira gota cai dentre as nuvens que se dissipam na imensidão celeste.