Receita de Ano …

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido (mal vivido ou talvez sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?). Não precisa fazer lista de boas intençõespara arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do “Jornal do Brasil”, Dezembro/1997.
Carlos Drummond de Andrade

É com essa mensagem de Carlos Drummond, uma de minhas preferidas sobre o ano novo, que desejo a todos vocês um ótimo 2013! Que nossos planos se concretizem e que possamos fazer deste ano um ano melhor. Afinal, para que ocorram mudanças em nossas vidas, não é necessário que se mude o ano, mas que mudemos a nós mesmos.

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Proselitismo religioso?

Fim de ano chegando e mensagens de boas festas em todo lugar. Inclusive na portaria da Universidade.

Uma mensagem, digamos que inofensiva, da UFLA, gerou polêmica em virtude de pessoas que adoram problematizar questões sem a menor necessidade. O banner de boas festas de fim de ano foi acusado de ferir a laicidade do Estado e gerou um abaixo-assinado pedindo sua retirada, por “militantes ateus” que se sentiram “ofendidos” e “feridos na sua liberdade de crença”. Clique aqui para ver a imagem.

Pois bem, segundo esses mais de duzentos estudantes, a pequena expressão “crença no criador” é um proselitismo religioso velado que remete ao catolicismo e tenta impor uma crença no deus cristão. A Universidade, por ser pública e plural, deve ser laica, ou seja, não possuir uma religião oficial, não privilegiar uma religião em detrimento das outras. Por isso, não deveria haver menção a Cristo no banner, independente de ser a religião com maior número de adeptos no país, visto que há pessoas que compartilham outras crenças ou não-crenças e o direito das minorias deve sempre ser assegurado.

Contudo, é só um banner de fim de ano. A comemoração natalina está enraizada na nossa  cultura. Mesmo teoricamente o governo brasileiro sendo laico, ainda há muita influência do catolicismo e isso podemos observar pela quantidade de feriados religiosos no nosso calendário (Sexta-feira da Paixão, Corpus Christi, Dia de Nossa Senhora Aparecida, Finados, Natal). Se fôssemos seguir essa lógica de raciocínio, deveríamos não somente retirar a mensagem do banner da universidade e a frase “Deus seja louvado” das notas do real, mas também excluir todos estes feriados do calendário. Mas isso ninguém quer reivindicar.

O banner não fere a liberdade de crença como argumentaram alguns ateus. Ele não está impondo que você creia em um criador. Aliás, a expressão crença no criador não está tornando estrita a crença em Cristo, pode ser qualquer criador, abrangendo várias religiões. Simplesmente, se a pessoa que lê a mensagem é um crente tomará a frase para si com contento, se é um não-crente com consciência de que a maioria das pessoas compartilha daquela crença, apenas ignora e não absorve a mensagem para sua vida. Não há porque polemitizar essa simples frase.

O Estado, assim como as universidades pertencentes a ele não devem se deixar influenciar por princípios religiosos. Correto. Mas isso deve ser levado em conta nas tomadas de decisões referentes a assuntos que modifiquem verdadeiramente a sociedade e a maneira como se organiza. Querem discutir a laicidade do governo? Discutam o aborto, a eutanásia, a pesquisa com células-tronco. Não criem problemas com uma simples mensagem de fim de ano. O país já tem muitos paradigmas a serem colocados em xeque, não se atenham a assuntos insignificantes que não prejudicam nem modificam em nada a atual conjuntura.

Independente de sua crença (ou não-crença), desejo a você boas festas de fim de ano!